Beleza em um safári a pé no Nepal, ou – o dia que mais senti medo na vida

Já vivenciei algumas situações extremas como avalanches e deslizamentos de terra. Já saltei de paraquedas um bom punhado de vezes, já passei perrengue no mar do Havaí, já tive medo de assalto em quebradas remotas. Mas nunca senti tanta angústia quanto no meu safári a pé no Nepal. Não por nenhuma violência, fenômeno natural ou esporte radical. Entre as minhas muitas histórias de viagem, esta tem sido uma das que mais conto. E a razão é bem óbvia: não me lembro de passar tanta aflição quanto no Chitwan National Park.

Ah Felipe, deixa de ser exagerado e conta por que sentiu tanto medo? – Porque entre fazer de jipe ou caminhando, eu simplesmente optei por fazer um safári a pé.

Quem é Nutella vai de jipe

Mas como é isso? – É simples, é igual um safári num lugar forrado de bichos selvagens, mas a pé. Tipo uma trilha? – Exatamente, tipo uma trilha em que você vai espremido entre um guia na frente e outro na retaguarda. Mas no Nepal tem animais perigosos? – Claro que não! Só tem elefante, rinoceronte, urso e tigre. Tranquilidade total. Só que não.

Safári a pé… Com emoção ou com emoção?

Mas como é fazer um safári a pé no Nepal?

Pra chegar lá você pega uma van em Kathmandu, capital do Nepal, e 6 horas depois vai parar em Sauraha. Quase na fronteira com a Índia, fica só a 400 metros de altitude, bem mais baixo do que os 1.600 metros da capital. Cabe aqui um parênteses incrível: o Nepal tem um território do tamanho do Estado do rio Grande do Sul com uma altitude que varia de 400 a 8.840 metros acima do nível do mar, no cume do Monte Everest, a mais alta montanha do planeta.

Lá em baixo, na entrada do Chitwan National Park o calor úmido e abafado o lembrará muito mais do Piauí do que do Himalaia. Após pagar uma taxa de acesso (US$ 7), e atravessar o Rio Rapti numa canoa, o visitante tá lascado, digo, o visitante entra na área protegida. Eu fui logo recebido por uma fuinha de mais de um metro passando pertinho. O susto não tinha nem começado.

Ram, nosso guia, e sua camiseta temática

Ram, o meu guia principal, parou na margem do rio para fazer o briefing. É mais ou menos um resumo do tamanho da roubada em que você se meteu. Afinal, ele precisa explicar os procedimentos de segurança. “A forma como você reagir diante de um animal pode determinar o que vai acontecer com todos nós”. Pega essa responsa, filhão!

“Se a gente vir um rinoceronte e ele vier pra cima, corra em ziguezague”. – Aham, tá certo. “Se vir uma árvore com mais de três metros, suba nela, se for menor, ele vai derrubar”. – Opa, podeixá. “Mas tente ir deixando cair objetos pelo caminho, porque ele vai se distrair com o cheiro, comece por seu cantil, seu boné e se não adiantar, sua câmera”. – Claro, vou lembrar bem da ordem, fica tranquilo.

A essa altura eu já estava quase pedindo uma fralda geriátrica, mas o Ram prosseguiu. “Se a gente vir um tigre e você correr, todo mundo pode morrer”. – Olha eu me transformando em assassino involuntário! “Se você virar de costas para o tigre ele entende que você é uma presa e avança. É preciso encará-lo nos olhos”. – Nossa já tô vendo que vai rolar um clima de descontração e paquera.

O sorriso de medo e Budah Lama atrás

Atrás do Ram ia um meninão neozelandês gente boa cujo nome eu esqueci, este cagão que vos escreve, seguido pelo fiel escudeiro Budah Lama, um nepalês miúdo com fisionomia mongol, na retaguarda. O quarteto fantástico contra todo o reino animal. Nesse momento o querido leitor me pergunta: mas os guias vão armados né? – Lógico que sim, meu caro! Armados até os dentes com um poderosíssimo bastão de bambu. Bicharada, tremei!

Ram e o neozelandês “sem nome” iam na frente

Repare que você já leu meia dúzia de parágrafos até agora e o Ram ainda continua o briefing. E eu continuo me pelando de paúra. Todo tremendo. Seguimos.

“Se a gente encontrar o urso-beiçudo e ele vier inspecionar a gente, torça para ser um macho”. – Ó, xá cumigo, já to com os dedos cruzados, mas por que? “Porque as fêmeas atracam direto na genitália do inimigo. Você deve erguer sua mochila ou seu cantil o mais alto que puder para parecer maior do que o urso! Enquanto isso eu e Budah Lama vamos batendo o bastão no chão e fazendo bastante barulho pra espantar o urso!” – Ahahahaha falou, o urso vai desistir de tanto rir, isso sim.

Borboletinha pra aliviar a tensão =)

A bandeira a meio pau na entrada do parque tinha um significado: um guia havia morrido há três dias. Como? Atacado por um rinoceronte. Quando soube disso eu pensei tanto em arregar, você não imagina.

A essa altura o calor de derreter era o menor dos meus problemas. A vegetação variava de algo como um Cerrado até uma floresta fechada como Mata Atlântica, passando por savana e alguns trechos mais áridos.

Diante de um rabisco na areia Ram me perguntou: “Do you know a snake named naja? She’s just been here”. Pelamordedeus, meu filho, eu já tava todo me pelando com os bichos grandes e agora eu tenho que me preocupar também com os que rastejam? É isso mesmo, produção?

Ram meio preocupado. Será mesmo?

 

O jacaré nadando ali no rio era inofensivo porque eu podia calcular bem a distância entre ele e eu. Mas o que eu não via me deixava num estado de tensão bizarro. No meio da mata avistamos um bando de veados que logo fugiram, alertados por macacos. Eles fazem uma parceria, os veados comendo os restos que caem das árvores, e se alertam sobre predadores. Um momento bonito e de descontração foi ver um pavão selvagem batendo asas de uma árvore até o chão. Até aquele momento eu achava que pavão era um bicho nativo de sítio de gente ryca.

Pavão selvagem

Pavão selvagem. Achou?

Com a informação de que um rinoceronte estaria chafurdado num brejo há umas duas horas de caminhada saímos em disparada pela mata. Em vários trechos a camiseta e o boné ficavam enganchados. Pelo caminho, bolotas enormes de cocô de rinoceronte fresco comprovavam que estávamos no território deles.

O mais puro e fresco cocô de rinoceronte.

O ritmo era intenso, desproporcional para quem havia andado vários dias num passo lento rumo ao Acampamento Base do Monte Everest. Estava esbaforido, mas prosseguia.

Budah Lama procurando bichos na torre de observaçao

De repente, parem! O Ram trava na minha frente e começa a escanear os arredores com seu bastão em punho. Logo atrás de mim, Budah Lama está em guarda com seu um metro e meio de altura, com seu bastão à la Donatello das Tartarugas Ninjas. Claramente está acontecendo algo grave. Meu olho urbano e míope tenta contribuir enquanto as mãos transbordam mais que as Cataratas do Iguaçu. Cagaço e calor convergem para as extremidades.

Eu não sabia o que era medo até viver aqueles instantes de apreensão. O olhar tenso do Ram e os olhos puxados de Budah Lama estavam ambos arregalados num claro sinal de perigo iminente.

Na hora em que o Ram apontou para a pegada de tigre no chão eu gelei. Ele continuou olhando ao redor enquanto eu não sabia se me mijava ou se tirava foto… Andou dois passos, mostrou uma pegada menor e proclamou:

– Um macho e uma fêmea passaram aqui há duas horas, no máximo. Eles sempre caçam juntos.

A famigerada pegada de tigre que encontrei no safári a pé no Nepal

A famigerada pegada de tigre!

Olha nóis com sorte aí gente! Chegamos duas horas atrasados pro banquete em que o prato do chef éramos nós mesmos! Toquem aqui meus amigos nepalenses! – Mentira, eu não pensei nada disso, eu tava com mais medo ainda.

Andamos um pouco mais, saímos do meio da mata e vimos um punhado de turistas na beira do rio. Os bastardos pagaram a mais e foram de canoa até lá, muito mais rápido e sem o ** na mão da caminhada. Enfiado no meio do lodo, a uns 5 metros de nós, mas num nível abaixo, um imenso rinoceronte pastava um matinho que crescia aos montes.

Rinoceronte imenso no meio do meu safário no Nepal

O bicho é imenso e feroz

E não era zoom da máquina não. A gente estava pertinho dele…

A turistada saiu. Tive uns 3 minutos pra clicar até o monstrengo dar uma rosnada absurda que fez o Ram pular pra traz e trupicar. E junto veio a ordem de chisparmos de volta à entrada do parque. A merecida cerveja Everest e o pôr do sol foram afagos da natureza após tanto estresse.

Cervejinha mais do que merecida

Para fechar com chave de ouro.

Missão cumprida, história vivida, mas eu nunca senti tanto medo. Se eu voltaria ao Chitwan National Park? Temo que a resposta seja “sim”.

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  1. Eurípedes  10/10/2017 | 15:37

    Que aventura, hein?! Ri muito, ri bastante!!! Mas a verdade é que vc teve muita, muita sorte!

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