Quênia: o inesquecível safari de bicicleta

Naivasha é uma pequena cidade queniana às margens do lago homônimo. Era cedo, antes das seis da manhã. Despertei numa pequena unidade da Associação Cristã de Moço. Na sigla em inglês, YMCA. Não, nada de Macho Man ou de chuva de homens. Uma manhã bem seca, na verdade. Ao notar o fino orvalho sobre as folhas e de estarmos na África, vesti uma blusa. Engoli algo comprado na véspera, fiz uma mochilinha para passar o dia e saí.

Uns vinte minutos depois, cheguei andando à portaria do Hell’s Gate National Park. Que baita nome sugestivo, pensará o leitor. Imagine você entrando num parque chamado porta do inferno. Agora imagine você entrando sozinho. Ah, mas você vai subir num jipe né? Aham, claro que não. A bordo de uma bicicleta alugada entramos, eu e meu receio, dentro de uma reserva repleta de animais selvagens. Passava pouco das seis e meia. “Meu filho, mas e os leão e os leopardo?!”, teria pensado minha mãe…

Logo de cara, bandos de gazelas me olhavam desconfiados e, ariscos, se escondiam numas moitas. A savana africana é uma fábrica delas – de moitas, não de gazelas. Até que nem vi tantas das saltitantes naquele dia. Alguns veados com chifres grandes, mais separados dos grupos, não conseguiam disfarçar suas protuberâncias. Olhei para trás e a portaria já se perdia a uns 500 metros de mim. Lá dentro tinha um humano – o que narra essas palavras. E só.

Eu, eu mesmo e a bike

Pedalei durante por duas horas absolutamente solitário. Às margens da estrada, por onde passaria um carro se necessário, uma imensidão de vida ia aparecendo. Primeiro vieram umas avestruzes imensas. Eu só tinha visto ema na natureza, mas as avestruzes são muito maiores. Bandos de oito a dez indivíduos me espreitavam sem parecer sentir medo. Encarei esperando que enfiassem a cabeça na terra – sempre achei que esse fosse o superpoder desse bicho. Mas não, não aconteceu.

Quem não teve a menor cerimônia comigo foram os macacos. Ou melhor, os babuínos. Dispersos, mas muito curiosos e interesseiros, se aproximaram de mim durante um breve lanchinho. Inocente, eu até achei que estavam posando pra câmera, mas era meu rango que eles queriam. Quando ficou óbvio que tudo o que daria para eles seria um sorriso e uns cliques, o macho alfa saiu da configuração quadrúpede. A passos decididos veio na minha direção, peito inflado, todo bípede empoderado, querer tirar satisfação.

Me levantei com pinta daqueles caras que acham que precisam defender a honra da namorada após uma cantada num bar. Olha, seu babuíno alfa, eu também sei fazer cara feia. Por alguns segundos nos encaramos num desafio interespécie, com alguma diferença de estatura. A uns 5 metros de mim ele parou. Sem virar as costas subi na bike e falei uns impropérios. Tudo resolvido, segui meu rumo.

Grandes companhias no horizonte

Depois de algumas horas solitário e, quase já convicto de que se algo desse errado estaria por mim mesmo, encontrei um jovem casal de checos. Com um inglês parco, mas muito gentis, percebi que seriam uma boa companhia, ainda que provisoriamente. Eles entraram depois de mim e o cara da guarita lhes avisou que havia um outro “muzungu” (homem branco, em suaíle, a língua mais falada no leste africano).

Pedalavam mais forte do que eu e estavam pouco preocupados em tirar fotos. Eu parecia um japonês, tentando me equilibrar sobre a bike e enquadrar as paisagens. Savana repletas de animais, mas com falésias ao fundo, o lugar parecia a parte larga de um cânion. Logo nos deparamos com as primeiras girafas. Nossa, que incrível estar tão perto delas e tão longe de um circo ou de um zoológico!

Normalmente reservadas, vieram pastar bem perto da estradinha. Que barato tê-las próximas dos olhos, minuciar detalhes na pele, padrões e formatos das manchas. Mas o que mais me marcou foi o breve trote de uma delas bem ao meu lado, com mais de 4 metros de pescoço. Mágico. Quando ela cruzou a estrada, a 3 metros de mim, o som das patas na terra batida tinha ritmo de galope de cavalo. Uma coisa surreal. Mãe, pedalei por uma dezena de metros lado a lado com uma girafa! Você precisava ver minha cara de felicidade.

A coisa ficaria ainda mais incrível

Seguimos por mais alguns quilômetros até uma guarita. Ali estava Seret, guia nativo que nos guiaria por dentro do Cânion Ol Njorowa até uma nascente. Deixamos a bike ali e seguimos com ele. Já passava das onze da manhã, fazia um calor dantesco. Bebia água desenfreadamente e, como vi que o guia não tinha sequer mochila (para uma caminha de duas horas – ida e volta), ofereci um gole várias vezes.

Até que ele me explicou que era da etnia masaï e que na sua aldeia tinha muito pouca água potável e por isso eles todos acostumam o corpo a beber pouco. Assim, ele preferia comer – aceitou umas cenouras e um amendoim que lhe ofereci – e sacar dos alimentos a água que precisa. Ah, e vestia camisa e calça e o calor passava de 40 graus fácil. No crachá, uma foto revelava o “verdadeiro Seret”, com os brincos e correntes de sua etnia no rosto e a túnica colorida que o cobre.

Atravessamos umas gargantas estreitas até chegarmos num lugar bem nada a ver. Era no topo de um morrinho, nada demais. Ali tinha um pequeno veio d’água. Antes que pudesse falar algo, perguntei ao Seret se poderia abastecer minha garrafa ali. Ele riu e disse “noooo!”. A nascente era, na verdade, um fervedouro, de onde brotava água sulfurosa a mais de 70 graus celsius. De repente, Seret saca um ovo cru (!) do bolso da camisa e joga no pequeno poço.

Meio espantado, meio muito assustado, alguns minutos eu vi ele puxar o ovo pra fora com dois galhinhos. Após dar umas batidinhas numa pedra ao lado, descascou e partiu ao meio, oferecendo metade para mim e metade aos checos. Mãe, comi ovo cozido nas águas da mãe natureza!

Surpreso e fascinado com aquela figura, fui conversando por muito tempo com ele. Um sem-fim de curiosidades sobre seu modo de vida, sobre as tradições de sua tribo – como a de cada menino ter de matar um leão para ganhar status de adulto – e sobre suas visões de mundo. Foi fascinante conviver com um masaï por algumas horas, pois durante meus 3 meses lá convivi majoritariamente com nativos da etnia luo, muito mais baixinhos e rechonchudos, além de adeptos de outros valores e crenças.

Na volta nos despedimos na guarita, pegamos nossas bikes e seguimos para a saída. Ainda faltava um tempo para o parque fechar. Os checos queriam partir, mas eu ainda tinha fôlego e fui explorar um canto do parque onde não tínhamos passado. Demos adeus, eles foram e eu segui meu caminho. Dei de cara com um bando de búfalos pastando. Tirando leões, elefantes e rinocerontes estes são os animais mais perigosos da savana. Nenhum destes outros vive no parque, segundo o Seret, porque a água contém muito ferro e eles não toleram.

Enfim, daí tô eu lá olhando pros bichos, a uns 15 metros de mim. Eu montado na bike, paradinho. Eis que o chefão do rebanho vem se aproximando para me dar um confere. Chegou pertinho, me mediu. Tive um déjà-vu de umas horas antes com o babuíno alfa. Só fiz encarar nos olhos. Ele, defensor da honra daqueles vinte búfalos, estava de sacanagem. Fez menção de me atacar e deu dois passinhos velozes na minha direção. Tomei um baita susto, caí da bike e ele ficou ali me olhando. Com os olhos arregalados, embarquei na magrela e toquei pra portaria. No rosto, um sorriso de medo misturado com um êxtase imenso.

 

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  1. Altier moulin  06/10/2017 | 17:22

    Uau… Fazer um safári já é uma experiência louca, mas fazer de bike… indescritível, fiquei arrepiado só de ler!

    • Felipe  09/10/2017 | 11:50

      Oi Altier, realmente é uma vivência maluca, repleta de sentimentos. QUe bom que gostou do texto. Aqui no Segredos de Viagem tem mais textos meus e na minha página http://www.facebook.com/fmtravelcontent/ você encontra mais matérias. Um abraço

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