COLUNAS: 365 DIAS PELO MUNDO, POR MARI CAMARGO – O tal do “volunturismo”


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Enquanto escrevo, completo 51 dias em Uganda. Sem banho quente, sem televisão. Sem máquina de lavar roupa e sem privada. Sem pressa, porque aqui não adianta ter pressa pra nada. E sem frescura. Passei minhas duas primeiras semanas sem energia elétrica e água corrente, o que significa banho frio de balde à luz de velas. Seria engraçado, se não fosse comigo. Mas foi minha escolha estar aqui e, no fim do dia, agradeço por cada pedra no sapato.

Há dois meses dou aulas de estudos sociais, inglês e matemática para crianças carentes em uma favela em Kampala, capital de Uganda. Aqui, as famílias vivem com menos de 1,30 usd/dia, sendo que cada uma tem em média 6 filhos. Muitas das crianças fazem parte da primeira geração a ir para a escola, enquanto alguns dos seus irmãos não poderão ir por falta de recursos financeiros. Quando cheguei, tudo o que eu enxergava era pobreza, sujeira e desconforto. Agora, ainda vejo essas coisas, mas o que vejo mais são os olhos ávidos por aprender e os sorrisos constantes de quem tem esperança de um futuro melhor. Concluí que a pobreza é mesmo muito ruim, mas o que impressiona mais é a o espírito humano. A favor da experiência, garanto que nada do que eu vivi até agora foi tão libertador como a simplicidade de vida que eu tenho aqui, nem tão revigorante como a felicidade desinteressada dessas pessoas materialmente pobres, mas ricas de espírito. Precisa-se superar o estigma de que a África é um buraco preenchido de doenças e pobreza.  O cliché existe, mas bastou chegar aqui pra abrir meus olhos pra tantas cores, ritmos e sorrisos que se confundem com os de casa.

Todos os dias em Kampala apresentam um desafio. Aqui, todas as regras não passam de sugestões. A conseqüência é uma cidade caótica onde galinhas, pessoas, lotações, motocicletas, carros e cabras se acotovelam pelas ruas sem nome e sem número. Paulistana que sou, queria ir para um lugar onde não houvesse trânsito e eis que chego em um lugar onde o trânsito é pior: as avenidas te sufocam com fumaça de carros desregulados e com a poeira vermelha que emana do chão de terra batida, porque o dinheiro que era pra asfaltar a cidade ficou no bolso dos políticos mesmo. Em muitos casos, a África me faz lembrar de casa.

Mas não é de todo ruim. Concluí que lugares podem ser bons ou ruins, mas que pessoas são decisivas para uma boa experiência. Quando penso em quantas gerações foram perdidas com a guerra civil que assolou o país por quase três décadas, me impressiona que os ugandenses sejam tão abertos, risonhos e dados. “Mzungu, how are you?”, me cumprimentam em cada esquina. Me chamam de gringa, e eu aceito. Apertam minha mão e me examinam da cabeça aos pés, até me tocam na rua para comprovar que sou real. As veias nos meus braços, o comprimento do meu cabelo, as pintas na minha pele: tudo é motivo de curiosidade. Se você é o tipo de pessoa que prima por espaço pessoal, sinto muito, porque esse conceito ainda não chegou na África: tudo é assunto de todo mundo. Você é assunto de todo mundo e, afinal, você está no país deles.

Enfim, essa é a idéia do VOLUNTURISMO: abrir mão das férias tradicionais e ir passar seu tempo de descanso dedicando suas habilidades a uma causa social, normalmente longe de casa. O ponto baixo? Nada de relax, o perrengue diário é real. O ponto alto? Experiências reais, lições reais e levar de volta na bagagem mais do que artesanatos. A oportunidade de mergulhar completamente em outra realidade e entender o mundo de outra perspectiva, pra mim, é irresistível.

Quando falta material, até o chão vira lousa pra quem quer aprender

Quando falta material, até o chão vira lousa pra quem quer aprender

Desde que vim pra cá, muita gente me pergunta como fiz pra chegar até aqui. Foram dois anos planejando a viagem, juntando dinheiro e pensando nos meus objetivos. Tive muita sorte e muito apoio. Muitas pessoas dizem estar esperando “o momento certo” para viajar, mas esse momento não aparece – é você quem o cria. Escrevi algumas dicas pra quem estiver afim de fazer o mesmo:

 

1.Tenha um objetivo. Pense no seu propósito e nas suas habilidades. Pense no que te motivou a procurar um trabalho social e no que você tem a oferecer. Qual a mudança que você quer promover? Você quer trabalhar com crianças? Adultos? Numa escola? Trabalhar com marketing para alguma organização? Você é bom em web design? Em música? Em artes? Finanças? Pense nas suas habilidades e como elas poderiam ser melhor aproveitadas dentro de um projeto, ou sobre o tipo de projeto que você gostaria de desenvolver dentro de uma organização. Muitas vezes, você vai ter um objetivo proposto pela ONG, mas também terá espaço para trazer suas próprias propostas. Mantenha sempre em mente a realidade da comunidade que te receberá – talvez pra eles não faça diferença ter aulas de arte moderna se ainda não sabem ler e escrever. Lembre-se de que as pessoas com quem você vai trabalhar muito provavelmente nunca foram além da cidade vizinha.

As crianças aprendendo a escovar os dentes

As crianças aprendendo a escovar os dentes

Seja honesto consigo mesmo sobre seus objetivos. Se sua motivação é ter algo a mais no currículo, tenha certeza que você será capaz de oferecer o seu melhor à organização que te receber. Se o seu objetivo é mais viajar do que voluntariar, tenha certeza que o projeto escolhido te oferece essa liberdade. Você é uma parte importante dessa experiência, mas a parte mais importante nunca é você. Seja qual for, se seu propósito for sério e sincero, você poderá se adaptar a qualquer coisa em função dele.

 

2. Pesquise. Pesquise muito sobre o país de seu interesse. Sobre a cultura, clima, o tipo de experiência que você quer. E aí pesquise mais. Saiba que existem países com menos ou mais liberdade, menos ou mais flexibilidade, menos ou mais estrangeiros. Esteja preparado para conviver com pessoas que não tem a menor idéia de onde você vem, e que, portanto, não conseguem compreender a extensão da mundança da sua realidade para a deles. Você conseguiria morar em um lugar sem eletricidade? Você tem alguma preocupação com comida? Uma cultura mais exótica te faria mais ou menos confortável?

A comida das crianças na escola

A comida das crianças na escola

Quando souber o seu propósito, pesquise as ONGs de fato. Procure ONGs sérias, que já tenham atestado sua veracidade e estabilidade. Transparência e resultados são muito importantes para entender o contexto e o alcance da ONG. Se possível, contate-as diretamente e pergunte sobre possibilidades de voluntariado. Algumas oferecem acomodação ou comida, algumas cobram taxas administrativas – cabe a você encontrar o que te faz confortável.

Se você é recém-graduado (até dois anos), a organização estudantil AIESEC oferece intercâmbios voluntários com maior assistência no país de destino, mediante uma taxa que gira em torno de mil reais. Já o Workway.info cobra 20 euros pela inscrição, e tem uma database enorme que conecta voluntários a organizações que precisam de ajuda. O Helpex.net também oferece o mesmo tipo de serviço, assim como o site Idealist. Mas, acima de tudo, procure ONGs com missões e visões compatíveis com as suas. Você tem que acreditar de coração no trabalho que você vai desenvolver.

 

3. Seja sumariamente realista. É impossível salvar o mundo. Se a sua viagem durar duas semanas ou dois meses, é importante considerar o que você consegue atingir nesse tempo e manter o foco no seu objetivo. Tive que me lembrar disso repetidamente nos últimos tempos – nunca poderei educar todas as crianças de Uganda, nem levar todas ao médico, nem me certificar que todas têm comida.

Tente se organizar para que a viagem dure, no mínimo, um mês. Se você só tem duas semanas para dedicar a um projeto, talvez você só alcance um impacto de curto prazo. Justo quando você começar a entender como as coisas funcionam, já é hora de ir embora e isso pode ser frustrante. Se você pensa em ir por mais de dois meses, você pode pensar em objetivos mais sólidos e contribuições mais significativas – e esperar também um retorno maior.

Pense na comunidade que vai te receber e quais as maiores necessidades deles, assim como as suas limitações. Às vezes somos ambiciosos e temos muitas idéias diferentes, mas a implementação não é possível por fatores que não dependem da nossa vontade. Se você quer ensinar computação, pense que o simples ato de digitar no word pode ser um desafio para alunos que nunca viram um teclado, e, portanto, as coisas tomarão mais tempo do que esperado.

Pessoal da escola com os materiais doados que a Mari arrecadou

Pessoal da escola com os materiais doados que a Mari arrecadou

Ser realista e ter expectativas razoáveis é muito importante para não deixar-se levar por pequenas frustrações. Não espere luxo. Não espere conforto. Não espere refeições gourmet. Espere o que condiz com um ambiente economicamente desfavorecido e esteja preparado para viver como os locais. Quando cheguei, me perguntava como iria conseguir viver sem fogão, geladeira, banho quente e chocolate. Hoje, me sinto muito feliz por ter superado os limites que eu mesma tinha me imposto. Viver em outra realidade é também abrir mão desses mimos diários afim de transcender em direção a uma vida mais flexível. Quanto menos coisas você precisa, mais livre você é.

 

4. Adapte-se. Uma das maiores lições que ficam pra mim da África foi aprender a improvisar, aceitar e abraçar novas circunstâncias. O número de vezes que tive que me reajustar a novas situações me fez perceber que o melhor plano de ação é não ter expectativas e simplesmente tentar fazer o melhor que se pode com o que se tem.

Permita-se algum tempo para entender como funcionam as coisas nesse lugar novo e tente de verdade fazer parte disso, por menos natural que pareça. Coma o que eles comem, se locomova como eles se locomovem. Se a cultura for barganhar, barganhe. Não seja tímido. E não julgue – por mais absurdo que pareça, respeite os costumes e a cultura local. Não existe cultura certa ou errada, apenas experiências positivas ou negativas – e mesmo as negativas trazem algum ensinamento. As coisas fluem mais tranquilamente quando nos libertamos dos nossos costumes e nos permitimos novos momentos de aprendizado.

Faça um esforço grande (mas grande mesmo) para não ficar apenas com estrangeiros. Aqui, vivo com 7 Ugandenses em uma casa simples. Sempre que estou frustrada ou irritada, eles me explicam sobre a cultura deles e me fazem rir da minha exasperação. Funciona. Enquanto isso, percebo que os voluntários que moram em apartamentos luxuosos e que socializam apenas com outros estrangeiros passam mais tempo reclamando das diferenças entre os países e menos tempo absorvendo a experiência.

A favela onde a Mari mora e trabalha em Uganda (chama Baanda)

A favela onde a Mari mora e trabalha em Uganda (chama Baanda)

 

5. Reflita. Você foi, trabalhou num projeto e agora é hora de voltar pra casa. Considere as mudanças que essa viagem trouxeram pra sua vida. Você se tornou alguém mais flexível? Mudou sua visão de mundo sobre pobreza? Desenvolveu alguma habilidade pessoal que será útil no seu trabalho?

Você sempre carregará suas experiências com você, mas faça uma síntese de seu aprendizado e exercite as lições que você aprendeu. Minha viagem ainda não acabou, mas já percebi muitas idéias diferentes dentro da minha própria cabeça. Vim para ser professora, mas desconfio que ensinei menos do que aprendi. Entre dias muito bons e dias muitos ruins, sei que estar aqui me fez mais aberta e humilde. Sei que não estou ganhando dinheiro, nem abrindo uma start-up ou avançando profissionalmente. Pode ser que a vida aqui seja devagar e nem sempre tão fácil, mas no fim das contas, tudo bem. Nada é perda de tempo quando o que se ganha é riqueza de espírito.

A Mari fez um crowdfunding para comprar material escolar e de higiene pessoal para as crianças e eles agradeceram!

A Mari fez um crowdfunding para comprar material escolar e de higiene pessoal para as crianças e eles agradeceram!

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A Mari Camargo é colunista do Segredos de Viagem e está em uma viagem de 365 dias por vários lugares do mundo. Ela escreve aqui toda primeira segunda-feira do mês.

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  • silvia camargo

    Muito boa a sua entrega. Se todos pudessem se doar teríamos um mundo bem melhor , cidadãos melhores e crianças felizes, saudáveis, amadas. Parabéns!

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