O prazer de escrever sobre viajar


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Se você trabalha o ano inteiro pensando no que vai fazer nas férias é porque tem algo nelas que mexe com você. Afinal, é a hora do seu merecido lazer. Uma pena que sejam só 30 dos 365 dias do ano, não é mesmo? Isso dá menos de 10% do seu ano, mas é bom olhar para essa brecha de tempo como um privilégio, um tempo de descansar, mas também de engrandecer, de evoluir. Ou, como se diz por aí, ampliar os horizontes.

Já percebeu o quanto essa ideia de visitar novos destinos e respirar outros ares é altamente poderosa. Pelos nossos olhos nos alimentamos de luz e belezas, no sentido de trazer o novo para nossa essência. Fechados em nossas rotinas, seja dentro do carro, do metrô ou do escritório, muitas vezes o cotidiano nos aprisiona no sentido figurativo e literal. Quantas vezes por dia você consegue olhar pela janela? E o que vê?

O mar de prédios que nos cerca e oprime visualmente, o rio de carros e esgoto, a fumaça e a pressa também nos encolhem espiritualmente. As férias, um feriado ou fim de semana, são uma chance de nos encher de elementos que desafiem essa barreira que o ambiente urbano nos impõe. Desacelerar é expandir.

Tirar a cara da cidade, nem que seja num bate-volta para a praia ou para o campo, já é um grande respiro. Tem algo de completamente libertador em pegar a estrada, como motorista ou passageiro, de carro ou de ônibus. Algo no girar das rodas e no roncar dos motores parece deixar para trás, nem que por alguma horas, a angústia do ter de fazer algo.

Beleza e carinho em todo canto, não se pode esquecer a beleza disso.

Manter um diário na vida da cidade pode soar uma ideia entediante logo de cara, afinal, muito do que fazemos são atividades regulares. Acordar, tomar café, encarar o transporte, trabalhar, almoçar, rir de uma piada sem graça, perder tempo nas redes sociais, trabalhar mais, tomar café, trabalhar mais um tanto, encarar de novo o transporte, ir para casa, mais rede social, que sabe um Netflix, cama. Repete. Ok, a vida é assim, temos de aceitar. Será?

Mas e se, nos momentos em que você e o contexto permitem sair da rotina da metrópole você registrar suas impressões, reflexões ou delírios? Sim, escrever e viajar andam juntos à medida em que uma ação pode expandir a outra, num círculo virtuoso sem fim.

Desambientados de nossa zona de conforto de segunda a sexta-feira estamos mais atentos aos sinais, ao que nos cerca. Ainda que numa cidade menor, geralmente temos mais contato com o que é nosso de origem: o ar livre, as frutas nas árvores, o canto dos passarinhos, a chuva. Se pensarmos em sítios e praias essas percepções se multiplicam. Existe riqueza demais aí.

Não estou falando que não se pode encontrar sossego numa metrópole e que férias e folgas devem ser no campo ou ao mar. Nem que grandes cidades, como Nova York e Paris não possam nos acalmar à sua maneira. Estou apenas propondo formas de quebrar a dinâmica urbana e alcançar um nível de observação do ambiente mais propício a vir quando rompemos as camadas da velocidade e da urgência. O “tudo para ontem” deveria ser apenas o “o que tiver para agora”. Sair da rotina é entender o poder do agora.

Existe algo de prático e muitos menos romântico no viajar e registrar. O nome do bom restaurante que encontrou, da melhor loja de roupas, do bar mais descolado. Anotar não só para não esquecer como para passar adiante aos amigos e desconhecidos, como um mapa do tesouro num garimpo do desconhecido numa terra longe de casa. Todas as dicas são válidas. Porém, queria me ater aqui ao detalhe do escrever para meditar, para ampliar-se, para além de dar os melhores conselhos de onde comer e qual drink tomar.

Com o olhar calmo, os detalhes vêm e neles reside a beleza. Escrever é apenas uma forma de garimpar as particularidades. Os contornos de uma flor, a chuva chegando, a luz do entardecer, o cheiro da terra molhada. Mas não só. Nas mãos impacientes de alguém, no olhar cansado, num sorriso envergonhado, no corpo que não consegue negar sua vontade. E também. Na conversa no banco da rodoviária, na piada sem graça do guia de turismo, na degustação de cachaça ruim, mas tão gentilmente oferecida que você chega a adorar.

Escrever é desses hábitos que a gente não perde. Escrever sobre viajar então…

Enxergar a grandeza do mínimo: é isso o que escrever sobre viagens pode impulsionar. A beleza e imponência do Museu do Louvre são unânimes, mas quando se ativeram a detalhes das molduras, do frenesi dos turistas, do tédio dos monitores de sala? Viajar é transportar-se não só para fora do dia a dia mas de você também. E provar como é saboroso armazenar essas sensações.

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