Nicarágua: cara a cara com a lava no Vulcão Masaya

Até as primeiras pesquisas na internet eu pouco sabia e muito ignorava sobre a Nicarágua. Meus conhecimentos se resumiam ao fato de o país ser produtor de banana, ter saída para o Mar do Caribe e para o Oceano Pacífico. Ah, e também que era a terra do líder revolucionário Augusto Sandino (1895-1934). Confesso que as buscas não foram tão esclarecedoras quanto esperava.

Até desembarcar na umidade do aeroporto de Manágua, é preciso fazer escala em Lima, Bogotá, Cidade do Panamá ou San Salvador. O espanhol é o principal idioma, mas algumas áreas do lado caribenho falam inglês e o miskito, dialeto de origem africana. Uma grande salada, mas que lá faz todo sentido.

Só pude ter uma vaga ideia quando me vi por alguns dias num território com vulcões, lavas e florestas, praias e montanhas, muito bem recebido pelo povo “nica”. Super acolhedores e gentis, num país que emana uma forte sensação de segurança e muita natureza. Numa inesperada mistura de paisagens, cores e vivências. Olha, que país massa. Mas sim, eu falei: lava!

Vulcão Masaya, na Nicarágua.

Já vi a Portela entrar na Sapucaí, avião fazer pouso de emergência, avalanches na encosta do Everest. Chuva de meteoros, tubarões de três metros, crianças falarem “papai e mamãe” pela primeira vez. Vi discurso da vitória de presidente eleito, amigo passar em Medicina na USP depois de tentar por cinco anos, gente chorando após perder dois filhos num deslizamento. Me julguem, mas não me lembro de nada me deixar mais sem palavras do que uma piscina de magma borbulhando logo ali. Como é maravilhoso poder enxergar.

Masaya: o filé mignon dos vulcões da Nicarágua

Embora a Nicarágua ostente 14 vulcões em seu território um pouco menor do que o Estado do Ceará, o Vulcão Masaya é o mais impressionante deles. Não por ser o mais cenográfico, com aquele formato cônico clássico, e nem imponente no horizonte. Mas por ser o único onde o visitante fica cara a cara com a lava. Nos outros, você tem no máximo, uma nuvenzinha de enxofre saindo do chão.

Uma variedade de cores, e claro, a tal da lava!!

E tudo isso ocorreu já no primeiro dia, porque o Parque Nacional Vulcão Masaya fica super pertinho de tudo, a apenas 35 quilômetros do aeroporto internacional Augusto Cesar Sandino, em Manágua, capital do país. Se estiver em deslocamento para outras áreas do país, como eu estava, recomendo já ir logo no desembarque no país. É um senhor cartão de visitas!

O acesso é feito de carro ou em vans do parque e de tours especializados. Por cerca de US$ 35, o tour é muito procurado ao entardecer, quando a lava fica bem mais nítida e reluzente. Depois de atravessar uma vegetação densa e com terra preta, os veículos chegam sem dificuldades a um estacionamento na boca da Cratera Santiago. Eu não fazia ideia de que pra estar diante de um fenômeno desta magnitude eu não precisaria dar mais do que 20 passos. Uma barbada. Não creio que haja nenhuma experiência magmática mais acessível no mundo, inclusive para pessoas portadoras de alguma deficiência física.

Lava, uma experiência multissensorial

Caraca! Noooooossa! Meldels! Eufórico, eu ria de gargalhar e proferia palavras e palavrões desconexos, como se estivesse em transe. Se tivesse filmado, juro que compartilharia o vexame. Eu dava pulinhos de emoção, como criança quando ganha o presente de Natal que esperava. Mas eu não esperava isso, não esperava nada, desembarquei completamente desinformado na Nicarágua. E muitas vezes a surpresa é um bônus da ignorância.

Uma sensação difícil de explicar.

Quando a luz dos olhos meus e a luz alaranjada da lava resolvem se encontrar, meu amor juro por Deus, me sinto incendiar. Ampla, a boca da cratera é como um imenso coliseu, de uns 600 metros de diâmetro. Logo ali, duas centenas de metros mais abaixo, uma imensa piscina de magma é o que os olhos conseguem observar em meio a uma chaminé de enxofre.

Cara a cara com o vulcão

Recheio de placas tectônicas, uma amostra do que se esconde sob nossos pés. Entre muitas fotos, fico extasiado.  Por conta do gás tóxico, só é permitido ficar por cinco minutos, por isso eu não parava de filmar e clicar. Mas com sorte o vento sopra para o lado oposto e ganha-se um tempinho extra. Meu grupo foi o primeiro a chegar e passei mais do que os parcos 5 minutos diante daquela divindade da Terra.

Quando as várias vans de turistas chegaram, eu já estava super satisfeito com os cliques. Aí o melhor ponto para fotos fica bem disputado. Já havia visto magma nos vulcões Etna e Stromboli, na Sicília, mas nunca vivi nada nessa intensidade. Impressiona demais ver a terra viva nos ruídos que emergem do caldeirão. O ruído varias de pequenas trovoadas ao escorrer de um rio. Mas nada me marcou mais do que as texturas pastosas e borbulhantes e a luminosidade oscilante. As cores da terra pintaram para sempre um tela especial na minha memória.

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