Viajar sozinha é libertador – mas não é pra mim


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Você já deve ter visto nossos posts sobre mulheres viajantes. Adoramos viajar sozinhas e queremos ajudar mais mulheres a fazerem o mesmo. Porém, nem todo mundo gosta. A Thaís Matos, de São Paulo, viajou sozinha para Roma e não teve uma experiência tão legal. Veja abaixo o relato dela:

“Viajar sozinha virou um dos passos mais celebrados da jornada de fortalecimento e empoderamento feminino. E que bom! Mas eu, pessoalmente, não gostei de trilhar esse caminho.

Passei por essa experiência em janeiro de 2017, quando fiquei três dias sozinha em Roma. Eu ia passar por três países com um trio de amigos e enfrentávamos um dilema para a escolha do quarto destino. Eles queriam ir para Berlim. Era o destino mais óbvio para quem vinha do leste europeu. Eu queria mudar a rota e aterrissar em Roma.

Me enchi de coragem – e inspiração em milhares de relatos de viajantes solo que via nas redes – e comprei minha passagem para viajar sozinha.

 

Photo by Keegan Houser on Unsplash

Mas tudo começou a dar errado antes mesmo de ir. Para começo de conversa, o couchsurfing que eu havia agendado deu pra trás no último minuto porque tinha começado a namorar – e aparentemente usava o couch como meio de paquera. Tive que encontrar um hostel de última hora que custou o dobro do preço normal e era de péssima qualidade.

Também perdi o celular dois dias antes de chegar em Roma, e isso ajudou a tornar minha experiência mais desagradável.

Mas perrengues a parte, havia algo de melancólico nos meus passeios solitários pela capital italiana que me perseguiu durante toda a estadia.

Na primeira manhã, até tentei fazer coisas com a colega de quarto do hostel. Mas já havia comprado visita para o Vaticano e ela já tinha ingresso para o Coliseu. Tomamos um café da manhã divertido, seguimos juntas até parte do caminho e depois fiquei de novo só naquele mundo novo.

Listo aqui as atividades que achei mais penosas de se fazer sem companhia:

Aguentar filas

Fiquei uma hora em pé na fila para a Basílica de São Pedro. Não havia uma viva alma para aliviar minha agonia com pequenas reclamações trocadas, histórias e curiosidades sobre o lugar ou mesmo para oferecer o alento silencioso da dor compartilhada;

Compartilhar a admiração

Eu vi os afrescos da Capela Sistina meio embasbacada. Eu olhava o Deus e o homem que quase tocam os dedos e pensava em mil coisas. Queria comentar aquilo com alguém, externar o quanto estava maravilhada e trocar impressões. Silêncio. Eu queria falar o quão extraordinário era o Coliseu e agradecer a oportunidade de estar ali. Ninguém.

 

Photo by Fallon Travels on Unsplash

Dividir comidas e custos

Essa é óbvia. Às vezes, os menus eram grandes demais. As pizzas individuais eram enormes. E eu queria provar tudo. Fez falta não ter alguém para pagar o salgado enquanto eu pagava a sobremesa. Para pedir pizza de um sabor enquanto eu pedia de outro e assim provar o dobro de descobertas pelo mesmo preço. Nesse caso fiquei em hostel, mas dividir quarto de hotel também alivia bem no orçamento final

Compartilhar os perrengues

É quase obrigatório passar por situações difíceis em viagem, se perder, ter que deixar uma atração de fora porque se empolgou demais em alguma outra e o tempo ficou apertado. Pegar um ônibus ou metrô errado. Enfim, em todas essas situações, ajudaria muito ter alguém do lado para ajudar a pensar em alternativas e trocar um abracinho de desespero. Parece que passar perrengue junto é divertido e vira história para contar, perrengue sozinho só é perrengue mesmo.

 

Photo by Oana Craciun on Unsplash

Tirar fotos

Parece bobo demais (e talvez seja) mas tem que ser dito. Você pode até pedir pra outros turistas tirarem uma foto de você naquele monumento maravilhoso que você sonhou em conhecer por anos, mas sempre vai ter mais chão do que monumento, ou um ângulo fechado em você que não pegue quase nada do lugar em que você está, uma tremidinha básica. E você, toda sem graça, não vai pedir para o desconhecido tirar mil fotos suas.

Essa não sou eu em Roma, afinal eu perdi meu celular e estava sozinha, mas podemos imaginar que foi assim / Photo by L A L A on Unsplash

Outros problemas

Além disso, sofri um assédio pesado. Eu passava as noites no salão do hostel conversando com as pessoas. Adorei esse momento de ouvir um pouco de cada cultura e sentir que o mundo era meu e eu era livre. Mas, por conta do estereótipo da mulher brasileira, os homens tomavam liberdades que não demonstravam com as outras meninas. Tive que ouvir que era a “típica brasileira” e responder a algumas perguntas sobre a vida sexual e amorosa no Brasil.

Mas o pesadelo aconteceu mesmo na volta para o aeroporto. “Roma é perigoso”, haviam me alertado. Medrosa que sou, aceitei relutante a companhia que um dos hóspedes ofereceu: ir comigo até o ponto de onde saíam os ônibus para o aeroporto – não sem antes perguntar pelo menos sete vezes para o recepcionista se era perigoso mesmo e se uma companhia masculina realmente faria diferença.

Quando cheguei lá, tive que responder várias vezes que não, realmente não queria beijá-lo. O rapaz ainda comprou uma passagem para ir comigo até o aeroporto e eu tive que insistir 10 vezes para que ele não fosse. Eu estava incomodada demais com aquela situação e minha palavra era simplesmente ignorada. Quando ameacei fazer um barraco, ele finalmente cedeu e se foi. Foi o chantilly do bolo.

A cereja viria mais tarde: o aeroporto fechava de madrugada e tive que passar a noite na rua. Meu voo era às 6h da manhã. Dormir na rua sozinha foi realmente assustador, mas pior ainda era não saber se seria capaz de acordar a tempo. Realmente não fui, mas dois viajantes muito fofos me acordaram 40 minutos após o aeroporto abrir e não perdi o voo (das gentilezas boas que reaqueceram o coração).

 

A fila para visitar o Vaticano foi um desafio / Photo by Caleb Miller on Unsplash

Os pontos positivos

Eu dei muito azar, eu sei. Mas nem tudo foi ruim. Guardo até hoje num espacinho do coração a sensação de liberdade de comer o que eu queria e não ser julgada por trocar refeições salgadas por doces a qualquer hora.

Poder escolher meu roteiro sem interferências – e poder fugir dele também – me encheu de um poder que eu nem sabia que tinha. Eu me perdi pelas ruas de Roma e fui andando e apreciando os prédios, a arquitetura, as pessoas. E este momento, na caminhada errante por vielas estreitas, foi o mais feliz da minha viagem.

Pude me permitir escolher se entrava ou saía dos lugares, se andava mais um pouco ou descansava um tiquinho. Me permiti até fazer uma reza na basílica como se estivesse em casa.

Para não ficar no silêncio, falei bastante – mesmo que mentalmente as vezes. Evoquei lembranças gostosas do passado e pensei em todas as vezes que sonhei estar ali. Trocava pequenas conversas com pessoas no metrô, nos comércios. Me demorava ouvindo conversas de brasileiros, tentando aprender italiano, imaginando as histórias daquelas pessoas.

Mesmo tendo plena consciência de que eu não gosto de estar só, quero dar mais uma chance a essa experiência. Apesar de todos os meus contratempos, tive que gerenciar minha crise sozinha e tomar decisões difíceis em pouco tempo, tomar as rédeas da situação e lidar com as consequências do curso. E esse foi um passo importantíssimo para minha satisfação e crescimento pessoal.

O importante nesse caso é saber que o que vale pra muitas pessoas não precisa valer pra você e está tudo bem com isso. Não gostar de viajar sozinha não te faz mais fraca ou mais dependente que qualquer mulher que você admira por ter adorado passar um período explorando sua própria companhia.”


O que achou do relato da Thaís? E você, já viajou sozinha? O que achou da experiência? Compartilha com a gente suas histórias e dicas para as amigas viajantes!

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