Cânion do Xingó e Raso da Catarina: dois segredos da Bahia


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Quando comecei a planejar minha última viagem de férias pelo nordeste brasileiro, o maior sonho era conhecer o Rio São Francisco. O roteiro passou por muitas modificações, mas o rio permaneceu lá, em dois pontos-chave: a foz e o Cânion do Xingó.

Depois de ver onde o Velho Chico deságua no mar (um dos lugares mais lindos que já estive na vida), na divisa entre Alagoas e Sergipe, foi hora de seguir viagem rumo ao interior para conhecer seus famosos cânions. Nessa região o Rio São Francisco passa no meio de formações rochosas. Em um passeio de barco é possível ver os cânions, chamados de Cânions do Xingó, de baixo em um visual de tirar o fôlego.

Aproveitamos e incluímos no roteiro também o Raso da Catarina, super segredo do interior da Bahia. A área de preservação ambiental fica pertinho dos Cânions do Xingó e tem também seus próprios cânions, mas sem rio no meio. Aproveitando a viagem você pode conhecer dois aspectos da região: a abundância das águas do São Francisco e a secura do sertão no Raso da Catarina. Veja mais do que falaremos aqui:

-Quanto tempo ficar para aproveitar a viagem
-Onde ficar no Cânion do Xingó
-O que fazer na região dos cânions
-Sugestão de roteiro pelo Cânion do Xingó

Raso da Catarina

O Cânion Seco do Raso da Catarina visto de baixo de manhã bem cedinho

Quanto tempo ficar no Cânion do Xingó?

Algumas pessoas fazem um bate e volta para conhecer o Cânion do Xingó a partir de Aracaju. Andando pela Passarela do Caranguejo não faltam ofertas de tours, mas eu não acho essa uma boa ideia. Em primeiro lugar porque não é perto: a viagem demora cerca de 4h cada trecho, então no fim do dia você estará destruído. Segundo, porque a região do Cânion do Xingó vai além do passeio de barco e há muito o que aproveitar, como eu conto abaixo.

Para conhecer bem a região é preciso no mínimo 3 dias, mas o ideal é ficar pelo menos 4. Em cinco dias é possível ver tudo com calma e sem deixar nada de fora.

Onde ficar no Cânion do Xingó?

O Cânion do Xingó está bem na divisa entre Alagoas, Sergipe e Bahia. Para conhecer a região você passará pelos três estados, às vezes no mesmo dia. Como há algumas cidades diferentes envolvidas, é preciso escolher uma base e se locomover por ali de carro, que pode ser o seu ou do guia, necessário para a maior parte dos passeios.

As principais cidades da região são Piranhas (em Alagoas) e Paulo Afonso (na Bahia). Elas estão a pouco mais de 1 hora de distância, justamente com a região do Cânion do Xingó entre as duas.

Em termos de distância, não faz muita diferença qual cidade optar. Piranhas é mais turística e é a melhor opção para quem busca ficar em um lugar charmoso. Paulo Afonso é uma cidade maior e uma boa para quem quer ficar em um lugar com mais estrutura.

O que fazer na região do Cânion do Xingó

1- Passeio de catamarã

Cânion do Xingó

O catamarã que faz o passeio pelos cânions tem dois andares

O principal passeio para fazer na região do Cânion do Xingó é, claro, o passeio de barco nos cânions do rio São Francisco. Há duas maneiras de fazer: em um catamarã ou com barco privativo.

O passeio de catamarã demora cerca de 3 horas, com algumas saídas marcadas por dia, e custa R$110 por pessoa. Nele você tem o visual dos cânions, faz uma parada para mergulho e, por mais R$ 10 pode pegar um barco menor para conhecer a Gruta do Talhado.

Você pode levar uns lanchinhos ou adquirir direto no barco, mas devo avisar que as coisas lá são bem caras. No catamarã vão até 250 pessoas e se você prefere fugir de aglomerações e/ou guias com microfones, melhor optar pelo outro barco.

Há algumas empresas diferentes que fazem o passeio de catamarã. Geralmente é necessário comprar o passeio em algum hotel da região e embarcar em um restaurante. Eu fiz o tour com a MF tur, comprando os ingressos no Hotel Pedra do Sino, em Piranhas, e embarquei no restaurante Karranka’s.

O barco particular costuma ser uma lancha comporta no máximo 10 pessoas e custa mais ou menos 150 reais por pessoa. O passeio é mais flexível, já que você combina com o barqueiro o melhor horário para sair. Você também pode levar algumas comidas para o caminho e ele mesmo já consegue entrar em alguns cantos menores, como o que mencionei acima. A dica é começar o passeio cedo, para chegar aos pontos de parada para nadar antes dos catamarãs e aproveitar com mais tranquilidade.

Um bônus para quem quer ver os cânions de todas as formas é fazer um passeio de helicóptero. Eles são oferecidos nos pontos de embarque para o passeio de barco. Há voos de 5 a 20 minutos, com preços variando entre R$ 225 e R$ 750 por pessoa.

2- MAX

Museu Arqueológico do Xingó

O MAX é pequeno, mas muito interessante

No caminho para ou do passeio de barco você passará pelo MAX, o Museu Arqueológico do Xingó. Ele funciona das 8h30 às 17h de terça a sábado e até às 16h aos domingos, e o preço para entrar é de R$ 5. Lá você conhece um pouco mais da história da região por meio das evidências históricas encontradas principalmente nas margens do Rio São Francisco seis anos antes da construção das hidrelétricas da região.

O museu é pequeno, mas muito bem organizado e completinho. Ele tanto expõe as descobertas feitas no Xingó, como explica como foi feito o trabalho de pesquisa e escavação. Vale a pena!

3- Vale dos Mestres

Esse foi o passeio que mais me surpreendeu na região. Há duas maneiras de se acessar o Vale dos Mestres, uma parte dos cânions do São Francisco: de barco ou por trilha. Eu recomendo fortemente que você faça a trilha. Ela é em geral fácil e demora só 30 minutos, mas vá de tênis porque em alguns momentos será preciso passar por algumas pedras que podem ser mais complicadinhas.

Vale dos Mestres - Xingó

A maior parte da trilha do Vale dos Mestres é bem tranquila

Para fazer a trilha do Vale dos Mestres é preciso contratar um guia. No caminho, você verá pinturas e gravuras rupestres, se der sorte como nós verá muitas borboletas e poderá aproveitar um visual incrível. Tudo muito incrível, mas o final é o verdadeiro prêmio do caminho.

A trilha do Vale dos Mestres acaba no rio, em um cantinho simplesmente maravilhoso e super tranquilo para nadar e até saltar de uma rocha. Vá de biquini/sunga/maiô no corpo e carregue pouca coisa, porque não tem onde deixar as coisas além de algumas pedras perto do rio. E de novo, tente chegar cedo para evitar que o local encha de gente que vêm de barco.

Vale dos Mestres - Xingó

O destino final da trilha vale cada passo

4- Hidrelétricas

A cidade de Paulo Afonso se desenvolveu em torno da construção da hidrelétrica do Xingó e é possível visitá-la. Como a maioria das atrações da região, é preciso de um guia para entrar na hidrelétrica. Esse passeio eu não fiz quando estive lá, porque fiquei só três dias e acabou não dando tempo, mas me parece uma boa ideia, especialmente para quem nunca esteve em uma hidrelétrica antes.

5- Rota do Cangaço

A história da região do Cânion do Xingó é fortemente marcada pelo cangaço. O movimento social super controverso é mencionado em diversos momentos nos passeios pelo Rio São Francisco e por isso merece um tour com dedicação exclusiva.

Como fiquei só três dias, não fiz a Rota do Cangaço, apesar de parte de alguns tours também incluírem o Raso da Catarina. Geralmente, a rota começa com um passeio de barco pelo Rio São Francisco, que leva até o povoado de Entremontes, famoso pelo trabalho das bordadeiras de rendedê. Dali, uma trilha leva até a Gruta do Angico, onde Lampião e Maria Bonita morreram – a maioria dos tours acabam por aí, vejam esse relato de quem foi.

Além do Raso, alguns passeios incluem também o Museu Casa de Maria Bonita. Você pode se informar melhor com o guia, que pode ser o mesmo para todos os passeios da região. Fizemos os nossos tours pelo Raso da Catarina e pelo Vale dos Mestres com o Nicollas, do Kalango do Sertão, que é bem experiente.

6- O Raso da Catarina

Cânion Seco - Raso da Catarina

Cânion Seco visto de cima ao amanhecer

O Raso da Catarina é um segredo para quem não é da região do Xingó ou do sertão baiano, e um mistério até mesmo para os que já conhecem o local. Ninguém sabe ao certo o motivo do nome, por exemplo. Algumas histórias dizem que Catarina era a filha de um antigo proprietário de terras dali, mas não é possível confirmar.

O Raso se estende por uma imensa área, que passa perto de Paulo Afonso, Juazeiro e Canudos, todas cidades baianas. Para quem está perto dos Cânions do Xingó, é possível fazer todo o passeio do Raso em um dia. É obrigatório ter um carro 4×4 e um guia, portanto prepare o bolso.

Nessa parte do Raso você verá o Cânion Seco, que fica em uma parte chamada Baixio do Chico e foi cenário de novelas como Amores Roubados e Velho Chico. Achei muito interessante observar o mesmo cânion tanto de cima quanto de baixo. A vista é linda dos dois jeitos.

A atração principal, porém, é a revoada das Araras Azuis de Lear. O que acontece muito muito cedo. Por isso, para fazer o passeio do Raso da Catarina é preciso sair de Paulo Afonso antes das 3h da manhã para chegar ao cânion antes do amanhecer, quando os pássaros saem dos ninhos.

Raso da Catarina

Os estragos causados pela falta de calça

Algumas dicas para aproveitar ao máximo seu passeio pelo Raso da Catarina são:

  • use tênis e calça, pois em algumas partes da trilha há plantas com espinhos que podem arranhar e até cortar a perna (como aconteceu comigo)
  • leve um casaco, porque por incrível que pareça, antes do amanhecer faz muito frio
  • fale com o guia sobre as condições climáticas. Quando chove, mesmo que apenas durante a noite ou no dia anterior, algumas partes do Baixio do Chico ficam intransitáveis
  • não se atrase! As araras não vão esperar por você.
Raso da Catarina

O café da manhã que mais parece um almoço, com a carne de bode assada em primeiro plano

Minha última sugestão é incluir no passeio um café da manhã regional, que acontece por volta das 9h, na volta do passeio. E prepare o estômago! O café tradicional inclui carne de bode, galinha, boi, arroz, salada… Mas vou dizer que eu AMEI o bode assado, mesmo tão cedo de manhã.

Se você quiser se aprofundar e conhecer tudo que o Raso da Catarina tem a oferecer, aumente sua viagem e inclua alguns dias em Petrolina e em Canudos. É difícil encontrar informações sobre a região toda, mas o G1 fez uma matéria.

7- Piranhas e Paulo Afonso

Em Paulo Afonso não tem muita coisa para conhecer. A cidade é grande, mas pouco turística. Ela foi construída em função da usina e por isso é bastante planejada, com avenidas amplas e lagoas artificiais que tornam o clima seco mais agradável.

Se você escolher se hospedar ali, não perca o Belvedere, um pequeno parque super agradável para passear. Também visite a estátua do Touro e a Sucuri, um ícone da cidade e que fica bem em frente ao Balneário de Paulo Afonso, outro ponto gostoso para um passeio.

Paulo Afonso

O letreiro da cidade, quase impossível de fazer caber na foto, fica no Balneário

Por ali, coma um peixe frito no Bar do Dió, que é um clássico e segredinho dos moradores de Paulo Afonso. Ele custa 50 reais e serve de 2 a três pessoas, com feijão verde e salada de acompanhamento. É preciso ligar e reservar antes ((75) 98871-2433). O Restaurante Bate Papo é a melhor opção para uma moqueca. Por valores entre 45 e 50 reais ela serve bem duas pessoas.

Piranhas é a cidade mais turística da região. Ela é pequena e charmosa, cheia de casinhas antiguinhas e coloridas. Lá, o mais legal é andar pelas ruazinhas simpáticas do centro histórico, que por sinal foi declarado Patrimônio Nacional da Humanidade.

Piranhas

A Praça Altemar Dutra, no centrinho da cidade, é um point para quem quer curtir a noite de Piranhas

Também pode ser interessante visitar o Museu do Sertão, que fica em uma antiga estação de trem. Quem está com o preparo físico em dia pode ter uma vista do alto da cidade e do Rio São Francisco subindo até a Igreja Nosso Senhor do Bonfim ou ao Mirante Secular.

Não deixe de conhecer o Café da Torre, que fica na Torre do Relógio, bem em frente ao Museu do Sertão, e tomar alguma coisa na Praça Altemar Dutra.

Piranhas

O interior do Café da Torre, que tem uma vista linda para a Igreja Nosso Senhor do Bonfim

Sugestão de roteiro pelos cânions do Xingó

Dia 1: Raso da Catarina

Comece logo com o passeio do Raso da Catarina, assim você já tira da frente o medo de acordar às 2h. Volte para casa, descanse um pouco e dedique o resto do dia para conhecer a cidade onde você está hospedado. Termine o dia cedo e se prepare para o dia seguinte.

Dia 2: Vale dos Mestres e Hidrelétrica

Comece cedo mais uma vez e faça a trilha do Vale dos Mestres. Depois da caminhada, coma rapidamente e continue o dia com o passeio na hidrelétrica.

Dia 3: Passeio de barco, Max, Piranhas. 

Depois de dois dias intensos, é hora de pegar mais leve e aproveitar para relaxar no passeio de barco pelo Rio São Francisco. Vá cedo e na volta passe na MAX. Termine o dia em Piranhas. Se você usou o primeiro dia para conhecer Paulo Afonso, aproveite para conhecer essa cidade agora e coma e beba em um dos diversos bares que enchem a praça central da cidade de mesinhas. Se ainda não esteve aqui, tente chegar cedo para dar uma voltinha e depois encerre o dia da mesma forma.

Dia 4: Rota do Cangaço

Para terminar a estadia na região do Cânion do Xingó, faça a Rota do Cangaço. O passeio não deve tomar o dia todo e você pode usar as horas que sobram para descansar, voltar a alguma das principais cidades e ver um pouco mais ou repetir algo que tenha agradado.


Espero que as dicas acima te ajudem a organizar uma viagem incrível pelo Cânion do Xingó. Mas se ainda tiver alguma dúvida, deixe um comentário abaixo que tentarei ao máximo te ajudar com a minha experiência. =)

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  • Sebastião Santos Silva da Bahia

    O CÂNION DO SÃO FRANCISCO

    O São Francisco é sagrado,
    produzindo muita riqueza,
    fornecendo água e energia,
    além de peixe e muita beleza.

    O Velho Chico nos encanta
    com cachoeiras e muita praia,
    proporcionando muito lazer
    pelo Sertão sem fugir da raia.

    O Cânion do São Francisco
    é o nosso Colorado Brasileiro,
    com mais beleza e exuberância,
    que serviu de lar pra cangaceiro.

    As águas com toda sua força
    fez o cânion serrando a serra,
    esculpindo tamanha beleza,
    ao encerrar a missão na terra.

    É de uma beleza estonteante
    ver as águas cor de esmeralda
    contrastando com a Caatinga
    e paredões de cor alaranjada.

    Autor: Sebastião Santos Silva da Bahia

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